Baseados na pesquisa feita em sala de aula sobre o romantismo, imprima as questões abaixo e responda, na própria folha, para entregar da data avisada em sala de aula.
1. Qual a obra considerada como marco inical do Romantismo em Portugal?
2. Qual a geração que se caracteriza pelo empenho em implantar o Romantismo em seu país?
3. Almeida Garret e Alexandre Herculano são autores de qual geração?
4. Qual a obra mais famosa de Camilo Castelo Branco e sobre o que ela fala?
5. Quando surge o Romantismo no Brasil?
6. Qual obra é considerado o marco inicial do Romantismo no Brasil?
7. Quais são as três gerações românticas no Brasil? Quais suas caracteriscias e seus autores?
8. O Romantismo brasileiro tem diferentes gêneros de produção. Quais são esses gêneros e seus principais autores?
domingo, 11 de abril de 2010
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Simbolismo / Parnasianismo
A poesia pós-romântica
Poderíamos afirmar que a poesia atual começa a desenhar-se após as experiências do Romantismo. Muitos poetas, nos dias de hoje, vivem entre a herança mística, sombria do Romantismo, e uma aguda intelectualidade e visão racional do mundo; entre a simplicidade de exposição de suas idéias e a profundidade complexa dos conteúdos expressos; entre a preferência por palavras simples e consideradas pouco poéticas e o estranhamento e falta de intimidade com a linguagem. Uma das características mais modernas da poesia atual é a tendência para a contradição.
Por contradição entendemos conflito. Esses conflitos surgem entre diferentes elementos. Entre o assunto tratado e a proposta do gênero do texto, como quando o poeta fala de pobreza e miséria, mas reconhece que os poemas, usualmente, procuram fugir desse tema. Há conflito também entre o desejo de ser lido e a utilização de uma linguagem hermética, difícil e rebuscada. Conflito entre a sensação de não ser compreendido pelo leitor e o desejo de falar-lhe. Conflito entre a necessidade de viver no mundo, com as palavras do mundo, e o desejo de chegar ao desconhecido. E a lista de contradições e conflitos poderia continuar...
Os conteúdos dos poemas tornam-se então, estranho ao leitor, deformados pelo olhar do poeta. Não há uma preocupação com a realidade em si, mas com o desejo de transformação do eu diante do mundo. Assim, transformam-se as distinções entre belo e feio, por exemplo, e a palavra ‘escarro’ em Augusto dos Anjos, torna-se parte de um jogo de rimas, dentro de um soneto. Algo que dificilmente passaria pela cabeça daqueles que vêem o mundo de um modo mais romântico e sonhador.
Conflito não significa completa negação do modelo do Romantismo. Ao contrário, muitos dos ideais e contribuições do Romantismo foram absorvidos pelo simbolismo e por outros poetas pós-românticos.
A poesia passa, desse modo, a evitar a intimidade comunicativa. Ela não quer ser íntima do leitor, mas desafiá-lo e provocá-lo. Suavidades e sentimentos ao cortados por palavras desarmoniosas, e a linguagem, ao mesmo tempo que atrai, perturba.
No Brasil, em um primeiro momento, além de alguns poetas que não se filiam a nenhum movimentos específico, dois movimentos literários vão seguir essa orientação transgressora: o Parnasianismo e o Simbolismo.
Parnasianismo: É na convergência de ideais anti-românticos, como a objetividade no trato dos temas e o culto da forma, que se situa a poética do Parnasianismo. Seus traços de relevo: gosto da descrição nítida, concepções tradicionalistas sobre metro, ritmo e rima e, no fundo, o ideal da impessoalidade que partilhava com os realistas do tempo.,
Simbolismo: A arte pela arte é assumida por eles (os simbolistas) mas retificada pela aspiração de integrar a poesia na vida cósmica e conferir-lhe um estatuto de privilégio que tradicionalmente caberia à religião ou à Filosofia.
Poderíamos afirmar que a poesia atual começa a desenhar-se após as experiências do Romantismo. Muitos poetas, nos dias de hoje, vivem entre a herança mística, sombria do Romantismo, e uma aguda intelectualidade e visão racional do mundo; entre a simplicidade de exposição de suas idéias e a profundidade complexa dos conteúdos expressos; entre a preferência por palavras simples e consideradas pouco poéticas e o estranhamento e falta de intimidade com a linguagem. Uma das características mais modernas da poesia atual é a tendência para a contradição.
Por contradição entendemos conflito. Esses conflitos surgem entre diferentes elementos. Entre o assunto tratado e a proposta do gênero do texto, como quando o poeta fala de pobreza e miséria, mas reconhece que os poemas, usualmente, procuram fugir desse tema. Há conflito também entre o desejo de ser lido e a utilização de uma linguagem hermética, difícil e rebuscada. Conflito entre a sensação de não ser compreendido pelo leitor e o desejo de falar-lhe. Conflito entre a necessidade de viver no mundo, com as palavras do mundo, e o desejo de chegar ao desconhecido. E a lista de contradições e conflitos poderia continuar...
Os conteúdos dos poemas tornam-se então, estranho ao leitor, deformados pelo olhar do poeta. Não há uma preocupação com a realidade em si, mas com o desejo de transformação do eu diante do mundo. Assim, transformam-se as distinções entre belo e feio, por exemplo, e a palavra ‘escarro’ em Augusto dos Anjos, torna-se parte de um jogo de rimas, dentro de um soneto. Algo que dificilmente passaria pela cabeça daqueles que vêem o mundo de um modo mais romântico e sonhador.
Conflito não significa completa negação do modelo do Romantismo. Ao contrário, muitos dos ideais e contribuições do Romantismo foram absorvidos pelo simbolismo e por outros poetas pós-românticos.
A poesia passa, desse modo, a evitar a intimidade comunicativa. Ela não quer ser íntima do leitor, mas desafiá-lo e provocá-lo. Suavidades e sentimentos ao cortados por palavras desarmoniosas, e a linguagem, ao mesmo tempo que atrai, perturba.
No Brasil, em um primeiro momento, além de alguns poetas que não se filiam a nenhum movimentos específico, dois movimentos literários vão seguir essa orientação transgressora: o Parnasianismo e o Simbolismo.
Parnasianismo: É na convergência de ideais anti-românticos, como a objetividade no trato dos temas e o culto da forma, que se situa a poética do Parnasianismo. Seus traços de relevo: gosto da descrição nítida, concepções tradicionalistas sobre metro, ritmo e rima e, no fundo, o ideal da impessoalidade que partilhava com os realistas do tempo.,
Simbolismo: A arte pela arte é assumida por eles (os simbolistas) mas retificada pela aspiração de integrar a poesia na vida cósmica e conferir-lhe um estatuto de privilégio que tradicionalmente caberia à religião ou à Filosofia.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Fora de Ordem (Caetano Veloso)
Vapor barato, um mero serviçal do narcotráfico
Foi encontrado na ruína de uma escola em construção
Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína
Tudo é menino e menina no olho da rua
O asfalto, a ponte o viaduto ganindo pra lua
Nada continua
E o cano da pistola que as crianças mordem
Reflete todas as cores da paisagem da cidade que é muito
Mais bonita eMuito mais intensa do que no cartão postal
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial...
Escuras coxas duras tuas duas de acrobata mulata
Tua batata da perna moderna, a trupe intrépida em que fluis
Te encontro em Sampa de onde mal se vê quem sobe ou desce arampa
Alguma coisa em nossa transa é quase luz forte demais
Parece pôr tudo à prova, parece fogo, parece, parece paz
Parece paz
Pletora de alegria, um show de Jorge Benjor dentro de nós
É muito, é muito, é total
Alguma coisa está fora da ordem,
Fora da nova ordem mundial...
Meu canto esconde-se como um bando de Ianomâmis na floresta
Na minha testa caem, vêm colocar-se plumas de um velho cocar
Estou de pé em cima do monte de imundo lixo baiano
Cuspo chicletes do ódio no esgoto exposto do Leblon
Mas retribuo a piscadela do garoto de frente do Trianon
Eu sei o que é bom
Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias possíveis sem juízo final
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial...
Foi encontrado na ruína de uma escola em construção
Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína
Tudo é menino e menina no olho da rua
O asfalto, a ponte o viaduto ganindo pra lua
Nada continua
E o cano da pistola que as crianças mordem
Reflete todas as cores da paisagem da cidade que é muito
Mais bonita eMuito mais intensa do que no cartão postal
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial...
Escuras coxas duras tuas duas de acrobata mulata
Tua batata da perna moderna, a trupe intrépida em que fluis
Te encontro em Sampa de onde mal se vê quem sobe ou desce arampa
Alguma coisa em nossa transa é quase luz forte demais
Parece pôr tudo à prova, parece fogo, parece, parece paz
Parece paz
Pletora de alegria, um show de Jorge Benjor dentro de nós
É muito, é muito, é total
Alguma coisa está fora da ordem,
Fora da nova ordem mundial...
Meu canto esconde-se como um bando de Ianomâmis na floresta
Na minha testa caem, vêm colocar-se plumas de um velho cocar
Estou de pé em cima do monte de imundo lixo baiano
Cuspo chicletes do ódio no esgoto exposto do Leblon
Mas retribuo a piscadela do garoto de frente do Trianon
Eu sei o que é bom
Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem
Apenas sei de diversas harmonias possíveis sem juízo final
Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial...
Versos Íntimos (Augusto dos Anjos)
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Aprendeu com seu pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. De uma família de proprietários de engenhos, assiste, nos primeiros anos do século XX, à decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas. Em 1903, matricula-se na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907. Ali teve contato com o trabalho "A Poesia Científica", do professor Martins Junior. Formado em direito, não advogou; vivia de ensinar português. Casou-se, em 04 de julho de 1910, com Ester Fialho. Nesse ano, em conseqüência de desentendimento com o governador, é afastado do cargo de professor do Liceu Paraibano. Muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério. Lecionou geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor. Em 1911, morre prematuramente seu primeiro filho. Em fins de 1913 mudou-se para Leopoldina MG, onde assumiu a direção do grupo escolar e continuou a dar aulas particulares. Seu único livro, "Eu", foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.
Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me"), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte"). A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa"). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais").
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884. Aprendeu com seu pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. De uma família de proprietários de engenhos, assiste, nos primeiros anos do século XX, à decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas. Em 1903, matricula-se na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907. Ali teve contato com o trabalho "A Poesia Científica", do professor Martins Junior. Formado em direito, não advogou; vivia de ensinar português. Casou-se, em 04 de julho de 1910, com Ester Fialho. Nesse ano, em conseqüência de desentendimento com o governador, é afastado do cargo de professor do Liceu Paraibano. Muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério. Lecionou geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor. Em 1911, morre prematuramente seu primeiro filho. Em fins de 1913 mudou-se para Leopoldina MG, onde assumiu a direção do grupo escolar e continuou a dar aulas particulares. Seu único livro, "Eu", foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.
Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me"), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte"). A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa"). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais").
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
O Conto Fantástico
características e trajetória histórica
Regina Zilberman
No conto fantástico, a magia desempenha um papel fundamental, estando sua presença associada a uma personagem que dificilmente ocupa o lugar principal. Eis uma característica decisiva desse tipo de história: o herói sofre o antagonismo de seres mais fortes que ele, carecendo do auxílio de uma figura que usufrui de algum poder, de natureza extraordinária. Para fazer jus a essa ajuda, porém, o herói precisa mostrar alguma virtude positiva, que é, seguidamente, de ordem moral, não de ordem física ou sobrenatural.
A presença da magia, enquanto um elemento capaz de modificar os acontecimentos, é o que distingue o conto fantástico. Esse elemento, porém, raramente é manipulado pelo herói, e sim por seu auxiliar ou por seu antagonista, pois a personagem principal, aquela que dá nome à narrativa (Branca de Neve, Bela Adormecida, Cinderela, João e sua irmã, Maria), é uma pessoa comum, desprovida de qualquer poder. Por essa razão, o leitor pode se identificar com ela, vivenciando, a seu lado, os perigos por que passa e almejando uma solução para os problemas que enfrenta.
É possível, pois, entender o que significa a magia nos contos fantásticos: é a forma assumida pela fantasia, de que somos dotados, e que nos ajuda a resolver problemas. Não significa que a fantasia está presente apenas nos contos fantásticos. Como depende dela a criação de histórias e de personagens para protagonizá-las, a fantasia manifesta-se em todos os gêneros de narrativa, sejam os populares, como mitos e lendas, sejam os literárias, como epopéias clássicas e romances modernos. Pode aparecer igualmente em outras expressões artísticas, como em filmes e peças de teatro, em histórias em quadrinhos, novelas de televisão ou enredos de jogos eletrônicos. Acontece que, nos contos de fadas, os seres da fantasia adotaram uma aparência facilmente reconhecível: os medos corporificaram-se em bruxas ou gigantes, e a vontade de superá-los, em benfeitores amáveis e solidários, como as fadas, que colaboram sempre, sem fazerem perguntas, nem cobrarem um preço.
Por essa razão, os contos fantásticos foram bem acolhidos, quando adaptados para o público infantil. Elaborados originalmente pelos camponeses do centro da Europa, foram recolhidos pelos irmãos Grimm e editados para a leitura das crianças, obtendo tanto sucesso que se tornaram o modelo seguido pelos escritores que desejaram se comunicar com o mesmo público. O mais conhecido e mais bem sucedido foi o dinamarquês Hans Christian Andersen, que soube extrair as lições contidas naquelas histórias tradicionais, tratando, por sua vez, de aperfeiçoá-las.
Andersen sabia que o ingrediente principal das histórias era a magia, elemento indispensável, sem o que a narrativa perderia interesse. Porém, evitou atribuí-la a uma personagem secundária, o auxiliar mágico, responsável, no conto de fadas tradicional, pela segurança do herói e pelo sucesso de suas ações. Por isso, colocou a magia na interioridade do protagonista, tornando-a um ser fantástico, mas, mesmo assim, problemático. É o caso de sua criação mais conhecida, o patinho feio. Porque possui propriedades humanas – fala, tem sentimentos, sofre com a rejeição –, ele se mostra mágico, isto é, incomum; além disso, experimenta uma metamorfose, passando do estado de “pato” (feio e inadequado) para o de “cisne” (belo e atraente). Contudo, sua vida é marcada pela mesma fragilidade experimentada pelos figurantes do conto de fadas; e, como eles, vai em busca da auto-afirmação, para poder descobrir seu lugar no mundo.
A expressão da fragilidade do ser humano encontra sua melhor expressão nas narrativas de Andersen, que a corporificou em seres especiais, como a pequena sereia e o soldadinho de chumbo, apaixonados ambos por figuras inacessíveis, distância que se amplia à medida que a narrativa se desenvolve. Andersen deu novo alcance à fantasia, indicando que, às vezes, apenas pela imaginação e criatividade podemos encontrar uma saída para nossas dificuldades.
Graças a Hans Christian Andersen, o conto fantástico encontrou a rota da renovação permanente, deixando de depender do aproveitamento de histórias provenientes da cultura popular. Para tanto, foi preciso proceder a uma supressão, fazendo desaparecer, como se observou, o auxiliar dotado de poderes sobrenaturais; o resultado foi uma espécie de cirurgia, que retirou da fantasia o componente mágico que a acompanhava. A fantasia permaneceu, sem que precisasse recorrer às propriedades mágicas das personagens. Resultou daí uma separação entre dois mundos: num deles, reina a fantasia; no outro, ela está ausente.
É o que se verifica nas narrativas criadas a partir do legado de Andersen, de que são exemplos as obras de, pelo menos, três grandes escritores, dois dos quais nem pensavam, preliminarmente, estar redigindo para o público infantil: Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas; James M. Barrie, em Peter Pan; Monteiro Lobato, no ciclo do Picapau Amarelo. Em qualquer livro desses autores, mostram-se dois mundos bem distintos: aquele em que a personagem, via de regra uma criança, vive no início do relato, é rotineiro e sem graça, dominado por adultos acomodados ao cotidiano do trabalho e da família. Tal como ocorre no conto de fadas original, uma ruptura ocorre, facultando a irrupção do sobrenatural: Alice persegue o coelho e chega ao País das Maravilhas (Wonderland); Wendy e seus irmãos, liderados por Peter Pan, alcançam a Terra do Nunca (Neverland); Pedrinho vem da cidade para as terras de Dona Benta, onde encontra a boneca falante Emília e todos os seres fantásticos que habitam o sítio do Picapau Amarelo. Só que as duas realidades – a dominada pela fantasia, de um lado, e a rotineira, de outro – não mais se comunicam, mantendo-se separadas para sempre.
Eis o conto fantástico moderno, de que é exemplo a saga de Harry Potter: também o jovem feiticeiro vive o contraponto entre dois mundos, sendo o da fantasia mais atraente, embora mais perigoso. Nesse universo sobrenatural, porém, ele pode se revelar herói, defender valores positivos, vivenciar a amizade e o amor. A fantasia não apenas ajuda a solucionar problemas, ela é superior ao contexto cinzento da rotina e da experiência doméstica.
(...)
No conto fantástico, a imaginação é o limite nunca ultrapassado. Em sala de aula, pode colaborar na condução do gosto pela leitura, que levará certamente ao conhecimento de novos horizontes fantásticos.
Regina Zilberman
No conto fantástico, a magia desempenha um papel fundamental, estando sua presença associada a uma personagem que dificilmente ocupa o lugar principal. Eis uma característica decisiva desse tipo de história: o herói sofre o antagonismo de seres mais fortes que ele, carecendo do auxílio de uma figura que usufrui de algum poder, de natureza extraordinária. Para fazer jus a essa ajuda, porém, o herói precisa mostrar alguma virtude positiva, que é, seguidamente, de ordem moral, não de ordem física ou sobrenatural.
A presença da magia, enquanto um elemento capaz de modificar os acontecimentos, é o que distingue o conto fantástico. Esse elemento, porém, raramente é manipulado pelo herói, e sim por seu auxiliar ou por seu antagonista, pois a personagem principal, aquela que dá nome à narrativa (Branca de Neve, Bela Adormecida, Cinderela, João e sua irmã, Maria), é uma pessoa comum, desprovida de qualquer poder. Por essa razão, o leitor pode se identificar com ela, vivenciando, a seu lado, os perigos por que passa e almejando uma solução para os problemas que enfrenta.
É possível, pois, entender o que significa a magia nos contos fantásticos: é a forma assumida pela fantasia, de que somos dotados, e que nos ajuda a resolver problemas. Não significa que a fantasia está presente apenas nos contos fantásticos. Como depende dela a criação de histórias e de personagens para protagonizá-las, a fantasia manifesta-se em todos os gêneros de narrativa, sejam os populares, como mitos e lendas, sejam os literárias, como epopéias clássicas e romances modernos. Pode aparecer igualmente em outras expressões artísticas, como em filmes e peças de teatro, em histórias em quadrinhos, novelas de televisão ou enredos de jogos eletrônicos. Acontece que, nos contos de fadas, os seres da fantasia adotaram uma aparência facilmente reconhecível: os medos corporificaram-se em bruxas ou gigantes, e a vontade de superá-los, em benfeitores amáveis e solidários, como as fadas, que colaboram sempre, sem fazerem perguntas, nem cobrarem um preço.
Por essa razão, os contos fantásticos foram bem acolhidos, quando adaptados para o público infantil. Elaborados originalmente pelos camponeses do centro da Europa, foram recolhidos pelos irmãos Grimm e editados para a leitura das crianças, obtendo tanto sucesso que se tornaram o modelo seguido pelos escritores que desejaram se comunicar com o mesmo público. O mais conhecido e mais bem sucedido foi o dinamarquês Hans Christian Andersen, que soube extrair as lições contidas naquelas histórias tradicionais, tratando, por sua vez, de aperfeiçoá-las.
Andersen sabia que o ingrediente principal das histórias era a magia, elemento indispensável, sem o que a narrativa perderia interesse. Porém, evitou atribuí-la a uma personagem secundária, o auxiliar mágico, responsável, no conto de fadas tradicional, pela segurança do herói e pelo sucesso de suas ações. Por isso, colocou a magia na interioridade do protagonista, tornando-a um ser fantástico, mas, mesmo assim, problemático. É o caso de sua criação mais conhecida, o patinho feio. Porque possui propriedades humanas – fala, tem sentimentos, sofre com a rejeição –, ele se mostra mágico, isto é, incomum; além disso, experimenta uma metamorfose, passando do estado de “pato” (feio e inadequado) para o de “cisne” (belo e atraente). Contudo, sua vida é marcada pela mesma fragilidade experimentada pelos figurantes do conto de fadas; e, como eles, vai em busca da auto-afirmação, para poder descobrir seu lugar no mundo.
A expressão da fragilidade do ser humano encontra sua melhor expressão nas narrativas de Andersen, que a corporificou em seres especiais, como a pequena sereia e o soldadinho de chumbo, apaixonados ambos por figuras inacessíveis, distância que se amplia à medida que a narrativa se desenvolve. Andersen deu novo alcance à fantasia, indicando que, às vezes, apenas pela imaginação e criatividade podemos encontrar uma saída para nossas dificuldades.
Graças a Hans Christian Andersen, o conto fantástico encontrou a rota da renovação permanente, deixando de depender do aproveitamento de histórias provenientes da cultura popular. Para tanto, foi preciso proceder a uma supressão, fazendo desaparecer, como se observou, o auxiliar dotado de poderes sobrenaturais; o resultado foi uma espécie de cirurgia, que retirou da fantasia o componente mágico que a acompanhava. A fantasia permaneceu, sem que precisasse recorrer às propriedades mágicas das personagens. Resultou daí uma separação entre dois mundos: num deles, reina a fantasia; no outro, ela está ausente.
É o que se verifica nas narrativas criadas a partir do legado de Andersen, de que são exemplos as obras de, pelo menos, três grandes escritores, dois dos quais nem pensavam, preliminarmente, estar redigindo para o público infantil: Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas; James M. Barrie, em Peter Pan; Monteiro Lobato, no ciclo do Picapau Amarelo. Em qualquer livro desses autores, mostram-se dois mundos bem distintos: aquele em que a personagem, via de regra uma criança, vive no início do relato, é rotineiro e sem graça, dominado por adultos acomodados ao cotidiano do trabalho e da família. Tal como ocorre no conto de fadas original, uma ruptura ocorre, facultando a irrupção do sobrenatural: Alice persegue o coelho e chega ao País das Maravilhas (Wonderland); Wendy e seus irmãos, liderados por Peter Pan, alcançam a Terra do Nunca (Neverland); Pedrinho vem da cidade para as terras de Dona Benta, onde encontra a boneca falante Emília e todos os seres fantásticos que habitam o sítio do Picapau Amarelo. Só que as duas realidades – a dominada pela fantasia, de um lado, e a rotineira, de outro – não mais se comunicam, mantendo-se separadas para sempre.
Eis o conto fantástico moderno, de que é exemplo a saga de Harry Potter: também o jovem feiticeiro vive o contraponto entre dois mundos, sendo o da fantasia mais atraente, embora mais perigoso. Nesse universo sobrenatural, porém, ele pode se revelar herói, defender valores positivos, vivenciar a amizade e o amor. A fantasia não apenas ajuda a solucionar problemas, ela é superior ao contexto cinzento da rotina e da experiência doméstica.
(...)
No conto fantástico, a imaginação é o limite nunca ultrapassado. Em sala de aula, pode colaborar na condução do gosto pela leitura, que levará certamente ao conhecimento de novos horizontes fantásticos.
terça-feira, 20 de maio de 2008
PRIMEIRA LIÇÃO - Ledo Ivo
PRIMEIRA LIÇÃO
Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler
Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
e aprendeu a amar
E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes
Um dia no muro
Ivo viu o mundo
a lição da plebe
E aprendeu a ver
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?
Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo
IVO, Ledo. Poesia completa (1940-2004)
Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler
Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
e aprendeu a amar
E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes
Um dia no muro
Ivo viu o mundo
a lição da plebe
E aprendeu a ver
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?
Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo
IVO, Ledo. Poesia completa (1940-2004)
Luar de Verão - Álvares de Azevedo
Luar de verão
O que vês, trovador? - Eu vejo a luaQue sem lavar a face ali passeia;No azul do firmamento inda é mais pálidaQue em cinzas do fogão uma candeia.
O que vês, trovador? - No esguio troncoVejo erguer-se o chinó de uma nogueira...além se encontra a luz sobre um rochedoTão liso como um pau de cabeleira.
Nas praias lisas a maré enchenteS'espraia cintilante d'ardentia...Em vez de aromas as doiradas ondasRespiram efluviosa maresia!
O que vês, trovador? - No céu formosoAo sopro dos favônios feiticeirosEu vejo - e tremo de paixão ao vê-las -As nuvens a dormir, como carneiros.
E vejo além, na sombra do horizonte,Como viúva moça envolta em luto,Brilhando em nuvem negra estrela vivaComo na treva a ponta de um charuto.
Teu romantismo bebo, ó minha lua,A teus raios divinos me abandono,Torno-me vaporoso... e só de ver-teEu sinto os lábios meus se abrirem de sono.
O que vês, trovador? - Eu vejo a luaQue sem lavar a face ali passeia;No azul do firmamento inda é mais pálidaQue em cinzas do fogão uma candeia.
O que vês, trovador? - No esguio troncoVejo erguer-se o chinó de uma nogueira...além se encontra a luz sobre um rochedoTão liso como um pau de cabeleira.
Nas praias lisas a maré enchenteS'espraia cintilante d'ardentia...Em vez de aromas as doiradas ondasRespiram efluviosa maresia!
O que vês, trovador? - No céu formosoAo sopro dos favônios feiticeirosEu vejo - e tremo de paixão ao vê-las -As nuvens a dormir, como carneiros.
E vejo além, na sombra do horizonte,Como viúva moça envolta em luto,Brilhando em nuvem negra estrela vivaComo na treva a ponta de um charuto.
Teu romantismo bebo, ó minha lua,A teus raios divinos me abandono,Torno-me vaporoso... e só de ver-teEu sinto os lábios meus se abrirem de sono.
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