características e trajetória histórica
Regina Zilberman
No conto fantástico, a magia desempenha um papel fundamental, estando sua presença associada a uma personagem que dificilmente ocupa o lugar principal. Eis uma característica decisiva desse tipo de história: o herói sofre o antagonismo de seres mais fortes que ele, carecendo do auxílio de uma figura que usufrui de algum poder, de natureza extraordinária. Para fazer jus a essa ajuda, porém, o herói precisa mostrar alguma virtude positiva, que é, seguidamente, de ordem moral, não de ordem física ou sobrenatural.
A presença da magia, enquanto um elemento capaz de modificar os acontecimentos, é o que distingue o conto fantástico. Esse elemento, porém, raramente é manipulado pelo herói, e sim por seu auxiliar ou por seu antagonista, pois a personagem principal, aquela que dá nome à narrativa (Branca de Neve, Bela Adormecida, Cinderela, João e sua irmã, Maria), é uma pessoa comum, desprovida de qualquer poder. Por essa razão, o leitor pode se identificar com ela, vivenciando, a seu lado, os perigos por que passa e almejando uma solução para os problemas que enfrenta.
É possível, pois, entender o que significa a magia nos contos fantásticos: é a forma assumida pela fantasia, de que somos dotados, e que nos ajuda a resolver problemas. Não significa que a fantasia está presente apenas nos contos fantásticos. Como depende dela a criação de histórias e de personagens para protagonizá-las, a fantasia manifesta-se em todos os gêneros de narrativa, sejam os populares, como mitos e lendas, sejam os literárias, como epopéias clássicas e romances modernos. Pode aparecer igualmente em outras expressões artísticas, como em filmes e peças de teatro, em histórias em quadrinhos, novelas de televisão ou enredos de jogos eletrônicos. Acontece que, nos contos de fadas, os seres da fantasia adotaram uma aparência facilmente reconhecível: os medos corporificaram-se em bruxas ou gigantes, e a vontade de superá-los, em benfeitores amáveis e solidários, como as fadas, que colaboram sempre, sem fazerem perguntas, nem cobrarem um preço.
Por essa razão, os contos fantásticos foram bem acolhidos, quando adaptados para o público infantil. Elaborados originalmente pelos camponeses do centro da Europa, foram recolhidos pelos irmãos Grimm e editados para a leitura das crianças, obtendo tanto sucesso que se tornaram o modelo seguido pelos escritores que desejaram se comunicar com o mesmo público. O mais conhecido e mais bem sucedido foi o dinamarquês Hans Christian Andersen, que soube extrair as lições contidas naquelas histórias tradicionais, tratando, por sua vez, de aperfeiçoá-las.
Andersen sabia que o ingrediente principal das histórias era a magia, elemento indispensável, sem o que a narrativa perderia interesse. Porém, evitou atribuí-la a uma personagem secundária, o auxiliar mágico, responsável, no conto de fadas tradicional, pela segurança do herói e pelo sucesso de suas ações. Por isso, colocou a magia na interioridade do protagonista, tornando-a um ser fantástico, mas, mesmo assim, problemático. É o caso de sua criação mais conhecida, o patinho feio. Porque possui propriedades humanas – fala, tem sentimentos, sofre com a rejeição –, ele se mostra mágico, isto é, incomum; além disso, experimenta uma metamorfose, passando do estado de “pato” (feio e inadequado) para o de “cisne” (belo e atraente). Contudo, sua vida é marcada pela mesma fragilidade experimentada pelos figurantes do conto de fadas; e, como eles, vai em busca da auto-afirmação, para poder descobrir seu lugar no mundo.
A expressão da fragilidade do ser humano encontra sua melhor expressão nas narrativas de Andersen, que a corporificou em seres especiais, como a pequena sereia e o soldadinho de chumbo, apaixonados ambos por figuras inacessíveis, distância que se amplia à medida que a narrativa se desenvolve. Andersen deu novo alcance à fantasia, indicando que, às vezes, apenas pela imaginação e criatividade podemos encontrar uma saída para nossas dificuldades.
Graças a Hans Christian Andersen, o conto fantástico encontrou a rota da renovação permanente, deixando de depender do aproveitamento de histórias provenientes da cultura popular. Para tanto, foi preciso proceder a uma supressão, fazendo desaparecer, como se observou, o auxiliar dotado de poderes sobrenaturais; o resultado foi uma espécie de cirurgia, que retirou da fantasia o componente mágico que a acompanhava. A fantasia permaneceu, sem que precisasse recorrer às propriedades mágicas das personagens. Resultou daí uma separação entre dois mundos: num deles, reina a fantasia; no outro, ela está ausente.
É o que se verifica nas narrativas criadas a partir do legado de Andersen, de que são exemplos as obras de, pelo menos, três grandes escritores, dois dos quais nem pensavam, preliminarmente, estar redigindo para o público infantil: Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas; James M. Barrie, em Peter Pan; Monteiro Lobato, no ciclo do Picapau Amarelo. Em qualquer livro desses autores, mostram-se dois mundos bem distintos: aquele em que a personagem, via de regra uma criança, vive no início do relato, é rotineiro e sem graça, dominado por adultos acomodados ao cotidiano do trabalho e da família. Tal como ocorre no conto de fadas original, uma ruptura ocorre, facultando a irrupção do sobrenatural: Alice persegue o coelho e chega ao País das Maravilhas (Wonderland); Wendy e seus irmãos, liderados por Peter Pan, alcançam a Terra do Nunca (Neverland); Pedrinho vem da cidade para as terras de Dona Benta, onde encontra a boneca falante Emília e todos os seres fantásticos que habitam o sítio do Picapau Amarelo. Só que as duas realidades – a dominada pela fantasia, de um lado, e a rotineira, de outro – não mais se comunicam, mantendo-se separadas para sempre.
Eis o conto fantástico moderno, de que é exemplo a saga de Harry Potter: também o jovem feiticeiro vive o contraponto entre dois mundos, sendo o da fantasia mais atraente, embora mais perigoso. Nesse universo sobrenatural, porém, ele pode se revelar herói, defender valores positivos, vivenciar a amizade e o amor. A fantasia não apenas ajuda a solucionar problemas, ela é superior ao contexto cinzento da rotina e da experiência doméstica.
(...)
No conto fantástico, a imaginação é o limite nunca ultrapassado. Em sala de aula, pode colaborar na condução do gosto pela leitura, que levará certamente ao conhecimento de novos horizontes fantásticos.
Regina Zilberman
No conto fantástico, a magia desempenha um papel fundamental, estando sua presença associada a uma personagem que dificilmente ocupa o lugar principal. Eis uma característica decisiva desse tipo de história: o herói sofre o antagonismo de seres mais fortes que ele, carecendo do auxílio de uma figura que usufrui de algum poder, de natureza extraordinária. Para fazer jus a essa ajuda, porém, o herói precisa mostrar alguma virtude positiva, que é, seguidamente, de ordem moral, não de ordem física ou sobrenatural.
A presença da magia, enquanto um elemento capaz de modificar os acontecimentos, é o que distingue o conto fantástico. Esse elemento, porém, raramente é manipulado pelo herói, e sim por seu auxiliar ou por seu antagonista, pois a personagem principal, aquela que dá nome à narrativa (Branca de Neve, Bela Adormecida, Cinderela, João e sua irmã, Maria), é uma pessoa comum, desprovida de qualquer poder. Por essa razão, o leitor pode se identificar com ela, vivenciando, a seu lado, os perigos por que passa e almejando uma solução para os problemas que enfrenta.
É possível, pois, entender o que significa a magia nos contos fantásticos: é a forma assumida pela fantasia, de que somos dotados, e que nos ajuda a resolver problemas. Não significa que a fantasia está presente apenas nos contos fantásticos. Como depende dela a criação de histórias e de personagens para protagonizá-las, a fantasia manifesta-se em todos os gêneros de narrativa, sejam os populares, como mitos e lendas, sejam os literárias, como epopéias clássicas e romances modernos. Pode aparecer igualmente em outras expressões artísticas, como em filmes e peças de teatro, em histórias em quadrinhos, novelas de televisão ou enredos de jogos eletrônicos. Acontece que, nos contos de fadas, os seres da fantasia adotaram uma aparência facilmente reconhecível: os medos corporificaram-se em bruxas ou gigantes, e a vontade de superá-los, em benfeitores amáveis e solidários, como as fadas, que colaboram sempre, sem fazerem perguntas, nem cobrarem um preço.
Por essa razão, os contos fantásticos foram bem acolhidos, quando adaptados para o público infantil. Elaborados originalmente pelos camponeses do centro da Europa, foram recolhidos pelos irmãos Grimm e editados para a leitura das crianças, obtendo tanto sucesso que se tornaram o modelo seguido pelos escritores que desejaram se comunicar com o mesmo público. O mais conhecido e mais bem sucedido foi o dinamarquês Hans Christian Andersen, que soube extrair as lições contidas naquelas histórias tradicionais, tratando, por sua vez, de aperfeiçoá-las.
Andersen sabia que o ingrediente principal das histórias era a magia, elemento indispensável, sem o que a narrativa perderia interesse. Porém, evitou atribuí-la a uma personagem secundária, o auxiliar mágico, responsável, no conto de fadas tradicional, pela segurança do herói e pelo sucesso de suas ações. Por isso, colocou a magia na interioridade do protagonista, tornando-a um ser fantástico, mas, mesmo assim, problemático. É o caso de sua criação mais conhecida, o patinho feio. Porque possui propriedades humanas – fala, tem sentimentos, sofre com a rejeição –, ele se mostra mágico, isto é, incomum; além disso, experimenta uma metamorfose, passando do estado de “pato” (feio e inadequado) para o de “cisne” (belo e atraente). Contudo, sua vida é marcada pela mesma fragilidade experimentada pelos figurantes do conto de fadas; e, como eles, vai em busca da auto-afirmação, para poder descobrir seu lugar no mundo.
A expressão da fragilidade do ser humano encontra sua melhor expressão nas narrativas de Andersen, que a corporificou em seres especiais, como a pequena sereia e o soldadinho de chumbo, apaixonados ambos por figuras inacessíveis, distância que se amplia à medida que a narrativa se desenvolve. Andersen deu novo alcance à fantasia, indicando que, às vezes, apenas pela imaginação e criatividade podemos encontrar uma saída para nossas dificuldades.
Graças a Hans Christian Andersen, o conto fantástico encontrou a rota da renovação permanente, deixando de depender do aproveitamento de histórias provenientes da cultura popular. Para tanto, foi preciso proceder a uma supressão, fazendo desaparecer, como se observou, o auxiliar dotado de poderes sobrenaturais; o resultado foi uma espécie de cirurgia, que retirou da fantasia o componente mágico que a acompanhava. A fantasia permaneceu, sem que precisasse recorrer às propriedades mágicas das personagens. Resultou daí uma separação entre dois mundos: num deles, reina a fantasia; no outro, ela está ausente.
É o que se verifica nas narrativas criadas a partir do legado de Andersen, de que são exemplos as obras de, pelo menos, três grandes escritores, dois dos quais nem pensavam, preliminarmente, estar redigindo para o público infantil: Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas; James M. Barrie, em Peter Pan; Monteiro Lobato, no ciclo do Picapau Amarelo. Em qualquer livro desses autores, mostram-se dois mundos bem distintos: aquele em que a personagem, via de regra uma criança, vive no início do relato, é rotineiro e sem graça, dominado por adultos acomodados ao cotidiano do trabalho e da família. Tal como ocorre no conto de fadas original, uma ruptura ocorre, facultando a irrupção do sobrenatural: Alice persegue o coelho e chega ao País das Maravilhas (Wonderland); Wendy e seus irmãos, liderados por Peter Pan, alcançam a Terra do Nunca (Neverland); Pedrinho vem da cidade para as terras de Dona Benta, onde encontra a boneca falante Emília e todos os seres fantásticos que habitam o sítio do Picapau Amarelo. Só que as duas realidades – a dominada pela fantasia, de um lado, e a rotineira, de outro – não mais se comunicam, mantendo-se separadas para sempre.
Eis o conto fantástico moderno, de que é exemplo a saga de Harry Potter: também o jovem feiticeiro vive o contraponto entre dois mundos, sendo o da fantasia mais atraente, embora mais perigoso. Nesse universo sobrenatural, porém, ele pode se revelar herói, defender valores positivos, vivenciar a amizade e o amor. A fantasia não apenas ajuda a solucionar problemas, ela é superior ao contexto cinzento da rotina e da experiência doméstica.
(...)
No conto fantástico, a imaginação é o limite nunca ultrapassado. Em sala de aula, pode colaborar na condução do gosto pela leitura, que levará certamente ao conhecimento de novos horizontes fantásticos.